Mostrando postagens com marcador violência obstétrica. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador violência obstétrica. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 15 de maio de 2019

Violência obstétrica e a decisão do Ministério da Saúde

O Ministério da Saúde publicou despacho no qual orienta que o termo violência obstétrica "não deve ser usado de maneira indiscriminada, principalmente se associado a procedimentos técnicos indispensáveis para resolução urgente de situações críticas à vida do binômio mãe-bebê relacionados ao momento do parto", o que, claro, gerou muito debate e revolta entre nós. Ele é usado de maneira indiscriminada? Que procedimentos indispensáveis seriam esses? 

A Organização Mundial da Saúde, no documento "Declaração de Prevenção e Eliminação de Abusos, Desrespeitos e Maus-tratos durante o parto", que foi publicado em 2014, reconhece as violências que as gestantes sofrem. O Ministério ressalta que "pauta todas suas recomendações pela melhor evidência científica disponível, guiadas pelos princípios legais, pelos princípios éticos fundamentais de cada categoria profissional, pela humanização do cuidado e pelos princípios conceituais e organizacionais do Sistema Único de Saúde". 


Em 2018, nas diretrizes de atenção à saúde das mulheres com mobilidade reduzida, o Ministério contou com a base de artigos acadêmicos para defender o termo e o seu uso. Definiram essa violência como “a violência institucional na atenção obstétrica promovida pela organização do serviço e pelos profissionais de saúde contra a mulher grávida durante a assistência ao pré-natal, parto, pós-parto, cesárea e abortamento”. Ou seja, temos contradições aqui e agora seguimos na contramão do mundo. 





Como violências presentes neste documento, são mencionadascesáreas desnecessárias e indesejadas, descaso nas situações de violência física, psicológica e sexualfalta de acessibilidade para marcação de consultas e realização de exames, descaso sobre o direito ao planejamento reprodutivo e prevenção de Infecções Sexualmente Transmissíveis, vírus da imunodeficiência humana (IST/HIV/Aids)restrição da participação da mulher no parto; julgamentos, chacotas e piadas, entre outros. 


Quem nunca passou por uma ou mais situações listadas acima? Quem não conhece uma mãe que vivenciou uma dessas violências? Nós sabemos que elas são reais, presentes, desumanas e que atentam contra as nossas vidas e a d@s noss@s filh@s. O Ministério justifica que a decisão acompanha o CFM, alegando que a expressão é uma agressão contra a medicina "contrariando conhecimentos científicos consagrados, reduzindo a segurança e a eficiência de uma boa prática assistencial e ética".

O que não é cogitado é que não é agradável para nós que termos como esses existam. Se o sistema fosse eficiente e se de fato, essas boas práticas fossem colocadas a serviço da vida das mulheres e d@s bebês, ele não precisaria existir. Não é prazeroso para nós, não mesmo. Também não somos inimigas de bons/boas profissionais da saúde, mas existe uma parcela que não coloca o juramento em prática e aí, precisamos buscar outras alternativas saudáveis e humanas para poder nos cuidar durante o processo da gestação e após também. Nos deparamos com outra barreira, quando sabemos que nem todas as gestantes tem acesso a isso. 

O Ministério Público Federal (MPF) reagiu
à essa decisão, alegando que a OMS reconhece expressamente a violência física e verbal no parto e recomendou que o Ministério da Saúde adote ações recomendadas pela Organização. Foram dados 15 dias para que o órgão responda a isso. 


A violência não vai deixar de existir. Essa é só mais uma forma de fragilizar e silenciar as agressões diárias que as mães sofrem. Uma decisão como essa faz com que, mais uma vez, sejamos agredidas pelo sistema de saúde. 

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Marcha pela Humanização do Parto

Creio que a essa altura, e se nós estivermos fazendo bem o nosso trabalho, vocês já estão sabendo que domingo, dia 05/08, nós teremos uma Marcha pela Humanização do Parto. O evento acontecerá em diversas cidades do país, e no Rio de Janeiro, começará às 14h, na Praia de Ipanema, em frente ao posto 9.



Nossa mobilização começou depois do CREMERJ divulgar as famigeradas resoluções impedindo a entrada de doulas, enfermeiras obstetrizes, parteiras e etc. (sim, eles escreveram etc...) no acompanhamento de parto hospitalar, bem como ameaça médicos que acompanharem partos domiciliares ou ainda que fiquem de retaguarda para mulheres que desejam o parto domiciliar. Ok, isso tudo a gente já sabe que é um absurdo, e vamos marchar contra isso. Mas vamos marchar também contra a violência obstétrica, esse fantasma horrendo que assombra as mulheres, mesmo sem saber, antes, durante e depois seus trabalhos de parto/cirurgias. Tem tanta coisa que é violência obstétrica e que cria marcas profundas físicas e emocionais que a maioria das pessoas nem sabe que existe! Aqui cito algumas delas:

- não permitir a entrada do acompanhante de escolha da mulher, antes, durante e após o nascimento;
- injeção de "sorinho", que na verdade se trata de ocitocina sintética e pode causar rompimento de útero e sofrimento fetal, além de tornar as contrações mais dolorosas e intensas;
- episiotomia de rotina: há 30 anos já se sabe que o corte não protege o períneo, pelo contrário, aumenta as chances de rompimento além de ter uma cicatrização muito mais lenta e complexa do que uma eventual laceração natural;
- não permitir que a mulher se expresse verbalmente ou se mova livremente durante o trabalho de parto, buscando vocalizações e posições que ajudem a passar pelo processo, isso também é violência;
- direcionar os puxos, ou seja, dizer à mulher quando fazer força, além de aumentar as chances de laceração do períneo e não adiantar, só faz deixar o trabalho de parto mais cansativo;
- subir na barriga!!! é inacreditável como tem gente que ainda faça disso um procedimento médico de rotina... pode causar rompimento de útero, além de aumentar e muito as chances de laceração grave de períneo;
- tricotomia... a mulher não precisa ser depilada para parir! e se precisar de uma cirurgia, dá para raspar os pêlos na hora, e só onde será feita a incisão;
- posição litotômica: gente! parir deitada torna a tarefa muito mais difícil! deixem que as mulheres se mexam, o corpo sabe o que fazer, e as posições de cócoras, na banqueta, de 4, de pé, na água... ufa... é tudo tão mais agradável!
- não permitir que o recém-nascido vá imediatamente para o colo da mãe: impedir o contato pele-com-pele imediato e a amamentação na primeira hora é um fator crucial no agravamento da distância entre mãe e bebê, além de ser traumático para ambos;
- quanto às demais intervenções no recém-nascido: colírio, aspiração, esfregação, "tapinha no bumbum", nada disso é preciso! bebês que nascem de forma natural estão prontos e resguardados. Alguns pouquíssimos casos necessitam de algum tipo de ajuda, e fazer disso uma rotina é violentar e desumanizar o nascimento;
- impedir o alojamento conjunto é violência obstétrica!
...  e a lista continua...

Deixem as mulheres em paz!!!



Não é papo de maluca, não é papo de mal amada..é papo de quem acredita que a forma de nascer é crucial para a formação do vínculo mãe e bebê, e crucial para o estabelecimento de uma relação familiar mais amorosa com a chegada do novo membro. Além do que dignidade é um direito de todos!

É por essas e outras que convoco à todas as mulheres, seus companheiros, filhos, amigos e familiares, a se juntarem à nós nessa linda caminhada. Nossas ações já derrubaram as resoluções em primeira instância, mas esse é só o começo da luta!

VAMOS MARCHAR!!!

Eu tenho certeza de que estamos fazendo a diferença! Tenho certeza de que chegará o dia em que mulheres passarão plenas e satisfeitas pela experiência do parto, e que isso fará delas mães mais fortes, e do vínculo com seus bebês mais estreito. Tenho certeza de que em breve nascer e amor serão sinônimos, e que por conta disso nossa sociedade se transformará! 


ps: você pode estar se perguntando "o que isso tem a ver com fraldas de pano?" mas quer um ato mais sustentável do que parir naturalmente... ?